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Vinil
23/09/2016

Fausto Fawcett

Enquanto lê o post abaixo, ouça as músicas de Fausto Fawcett clicando aqui.

Fausto Borel Cardoso (nascido no Rio de Janeiro em 10 de maio de 1957) é um jornalista, autor teatral, escritor de ficção científica e compositor.

Em 1987, a ditadura já havia tomado o caminho dos quartéis e o rock nacional reinava soberano nas rádios e na TV. Nas noites suburbanas cariocas um jovem fazia suas performances, que misturavam teatro, música e poesia. Uma delas ganhou as rádios, Kátia Flávia – A Godiva do Irajá, um rap embalado por teclados e guitarras que falava incansavelmente de uma loira marginal e de suas calcinhas. Foi quando o bordão “Exocet Calcinha” tomou conta das ruas.

Kátia Flávia conta a história de uma jovem marginal (ex-miss Febem, casada com um contraventor) que, não satisfeita em andar pelas noites suburbanas nua em um cavalo branco (alusão a Lady Godiva), mata o marido, rouba uma viatura da polícia e os desafia a pegá-la, num contato pelo rádio.

“Fazíamos os Robôs Efêmeros – eu, Laufer, Nélson Meirelles e Sérgio Mekler – com apresentações de histórias, meia-hora, eram duas, três histórias. A Kátia Flávia era uma história longa, foi retirado um pedaço dela para virar disco”, conta Fausto.

Vinil da Semana

Presente na trilha sonora da novela da Rede Globo O Outro e do filme franco-britânico Lua de Fel (1992), dirigido por Roman Polanski (e estrelado por Hugh Grant e Peter Coyote), a canção foi regravada dez anos depois por Fernanda Abreu.

Pioneiro, no primeiro álbum Fausto Fawcett incorporou à cena nacional a linguagem trazida pelo rap norte-americano para criar crônicas ambientadas em uma Copacabana frenética e caótica, onde convivem camelôs, cafetinas, prostitutas, travestis e policiais, entre outros personagens urbanos que o letrista/cantor enquadrou como poucos.

Da experiência como jornalista, Fausto extraiu relatos que revelam com requintada ironia a transformação da notícia em produto a ser servido às massas, de tal maneira que os interesses inconfessáveis que a cercam permaneçam ocultos sob o manto do que se convencionou chamar de “informação”. Nada escapa à sua metralhadora verbal, que ao se valer da guerra Irã-Iraque (1980-88) como pano de fundo, descreve encarniçadas disputas travadas cotidianamente no front de uma grande metrópole brasileira, o seu Rio de Janeiro.

Em 1989, Fausto e os Robôs voltaram à carga com uma ópera porno-futurista, o LP O Império dos Sentidos, que trazia na capa uma foto da modelo Silvia Pfeifer (que depois viraria atriz de TV). Em seguida, o cantor lançou o livro Santa Clara Poltergeist, que, transformado em show, revelou a primeira loura de sua dinastia: Regininha Poltergeist. Fausto embarcou depois no livro-show Básico Instinto (1993), que revelou a loura Marinara. Neste mesmo ano, lançou seu terceiro álbum, Fausto Fawcett e Falange Moulin Rouge,e teve uma de suas letras mais conhecidas, Rio 40 Graus, gravada por Fernanda Abreu – a música também seria incluída na trilha do filme Tropa de Elite (2007), de José Padilha.

Vinil da Semana

Em 1995, com o show Leviatã, trouxe de volta à cena a ex-chacrete (e loura) Cristina Azul. O reinado blondie só seria interrompido em 1999, quando Fausto compôs para o disco da morena apresentadora Tiazinha. No mesmo, ano estreou mais um show, Dallas Melrose.

Em 2010, o autor publicou mais dois livros: Loirinha Levada, sobre “uma menina sub-12, um infantil para crianças espertas”, e Favelost, trama passada num futuro em que São Paulo e Rio são uma única cidade, uma gigantesca “mancha urbana”, em que seus personagens estão ali para ancorar blocos de considerações sobre o poder das grandes corporações, a sustentabilidade, o terrorismo e a religião.

Vinil da Semana

“Todas as observações que venho colocando em música e texto, desde 1980, vêm se confirmando. É como se eu estivesse falando de um mesmo assunto com amadurecimento em torno do tema. Inventamos utopias, civilizações, histórias para dizer que vamos mudar.”

“Não fico escrevendo e colocando na gaveta. Mesmo o livro, que tem a mancha de prosa, tem um pé no ritmo. A música tem uma ginga de prosa que tem uma sedução literária” – assim ele define o seu trabalho.