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08/03/2019

Mulheres na literatura: não deixe esta história morrer

Por Juliane Medeiros

Tudo começou com a seguinte busca: “mulheres na literatura”. Cismei com isso após ler um texto muito bacana chamado Onde estão as Clarices? Mulheres na literatura brasileira. Percebi uma feliz similaridade dentre os vários resultados apresentados: a necessidade de compartilhar e discutir o papel e as obras das mulheres escritoras.

Calma. Não é que não existam autores incríveis contribuindo diariamente para a literatura. Ou que gênero seja de fato um critério válido para dizer quem merece ou não ser considerado relevante em sua área de atuação… não é mesmo!?

Entretanto, não podemos desconsiderar que o caminho feminino no campo da literatura perpassa a luta pela conquista de um direito básico: o direito à escrita. As poucas mulheres que conquistaram este direito ainda no século XIX chamaram para si a responsabilidade de lutar para que outras mulheres também o alcançassem e passassem a ocupar um espaço até então exclusivo dos homens.

O Brasil, por exemplo, desprezou a inserção das mulheres no sistema educacional desde a sua colonização. Elas não tinham acesso à educação formal e aquelas que quisessem aprender a ler iam aos conventos. O ensino começou a ser disponibilizado timidamente às mulheres somente no período do Império (1822-1889), ainda assim, os colégios destinados a elas eram particulares e, dessa maneira, somente as meninas de origem abastada podiam estudar.

Já o ingresso feminino na escola pública ocorreu após a fundação da Escola Normal, em 1880, na Corte do Rio de Janeiro.

Ora, se estas mulheres eram sequer leitoras, como poderiam querer escrever? Mas quiseram e lutaram por isso. Você já parou para pensar quem foram essas mulheres? Ou, ainda, porque não sabemos quem foram elas?

Na minha busca inicial, queria mesmo encontrar alguém que tivesse se ocupado em reunir a história das mulheres no que diz respeito ao acesso à educação e à produção literária. Professoras, pesquisadoras, acadêmicas, autoras, profissionais. Uma lista em construção, colaborativa, inspiradora, que mostrasse que a ocupação feminina dos espaços da produção do conhecimento contribuiu para reverberar a ousadia e a resistência daquelas primeiras mulheres no processo de inserção gradual de todas nós na esfera pública. Afinal, tudo começa pela leitura! Ela tem o importante papel de nos fazer entender o mundo.

Não encontrei exatamente o que buscava, mas no caminho aprendi muito. Dentre os melhores resultados: Mulheres na Literatura – O descompasso entre presença e prestígio; e ainda o excelente Marcos históricos da inserção das mulheres na imprensa: A conquista da escrita feminina. Sem dúvida, estas duas leituras ajudaram a enriquecer meu olhar sobre o tema.

Encontrei a lista  Mulheres para ler em 2018 2019 e uma plataforma dedicada à escrita feminina, o Leia Mulheres.  O jornal Folha de S. Paulo tem uma coleção inteira dedicada a elas, o Mulheres na Literatura.

Quem busca leituras inspiradoras deve conhecer o maravilhoso Tudo nela queima e brilha, da Ryane Leão. E ainda a incrível história – até então não contada – das quase um milhão de mulheres que lutaram pelo Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial. Escrito pela jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura por reconhecimento ao seu trabalho documental, o livro A Guerra não tem rosto de mulher é uma pancada e mostra que, ao longo da história, em muitos conflitos, as mulheres ficaram na retaguarda, porém, em outros, estiveram na linha de frente.

Infinitamente mais consciente do importante papel das mulheres ao longo da história, não apenas na literatura, termino este texto com o sentimento de que devemos mesmo lutar contra o apagamento das mulheres que nos auxiliaram a chegar até aqui. Resgatar suas histórias e suas conquistas, que se misturam às nossas. Elas merecem ser lembradas e são facilmente localizadas no Google. Nós merecemos.

Comente aqui: da sua lista de leituras para 2019, quantos conteúdos foram escritos por mulheres?

 

Bônus:  No Instagram da Prefácio você encontra uma breve resenha sobre as  autoras que inspiraram este texto