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Vinil
19/08/2016

Elis Regina

Enquanto lê o post abaixo, ouça a doce voz de Elis Regina clicando aqui.

Elis Regina Carvalho Costa (Porto Alegre, 17 de março de 1945 – São Paulo, 19 de janeiro de 1982) é considerada pela maioria dos críticos a melhor cantora popular do Brasil, também é comparada a estrelas como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Billie Holiday.

Filha de Romeu Costa e de Ercy Carvalho, começou a carreira como cantora aos 11 anos no programa de rádio O Clube do Guri, na Rádio Farroupilha. Em 1960 foi contratada pela Rádio Gaúcha e, em 1961, foi para o Rio de Janeiro onde gravou o primeiro LP, Viva a Brotolândia; lançaria ainda mais três discos antes de sair do Rio Grande do Sul.

Em 1964, com a agenda lotada no eixo Rio-São Paulo, é levada por Dom Um Romão para o Beco das Garrafas, onde é dirigida pela dupla Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli. Participa do espetáculo Fino da Bossa organizado pelo Centro Acadêmico da USP, que se transformaria num programa da TV Record apresentado por ela e Jair Rodrigues. A atração ficou no ar até 1967 e originou três álbuns de sucesso: um deles – Dois na Bossa – foi o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias. Seria dela agora o maior cachê do show business brasileiro.

Aos poucos, descolava-se da estética da Bossa Nova pelo uso de sua extensão vocal e de sua dramaticidade, adotando a MPB pautada por um hibridismo mais urbano e popular. A “Pimentinha”, como ficou conhecida, tinha um temperamento explosivo e, junto com Edu Lobo e Geraldo Vandré, combateu a invasão estrangeira personificada pela Jovem Guarda – além resgatar a imagem de importantes compositores como Adoniran Barbosa.
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Na década de 1960 surgiram os festivais de música popular brasileira, e sua antológica interpretação de Arrastão(Edu Lobo e Vinicius de Moraes) escreveu um novo capítulo na história da nossa música. O Troféu Roquette Pinto veio na sequência, elegendo-a a melhor cantora do ano, com apenas 20 anos de idade

Em 1968, uma viagem à Europa a lança no eixo internacional com grande sucesso, tornando-se a primeira artista a se apresentar duas vezes num mesmo ano na mais antiga sala de espetáculos de Paris, o Olympia. Em 1969 gravaAquarela do Brasil, em Estocolmo, com Toots Thielemans.

Foi Elis quem também lançou boa parte dos compositores até então pouco conhecidos, como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, João Bosco, Aldir Blanc, Renato Teixeira, Sueli Costa, além de projetar Belchior e Lô Borges. Era a musa de Milton, que lhe dedicou inúmeras canções.

Em 1974 gravou com Antônio Carlos Jobim o álbum Elis&Tom, considerado um dos melhores LPs da história da música brasileira, e continua sendo aclamado até hoje por músicos e críticos no mundo inteiro.

Em 1975 o espetáculo Falso Brilhante (coreografia de Lennie Dale, americano que viveu no Brasil e a ensinou a trabalhar o corpo no palco) fica mais de um ano em cartaz, realizando quase 300 apresentações. Outro grande êxito foi Transversal do Tempo, de 1978, em um clima extremamente político e tenso; Essa Mulher, de 1979, excursionou pelo Brasil no lançamento do álbum; Saudades do Brasil, 1980, sucesso tanto pela originalidade como pelos números com dançarinos amadores; e finalmente o espetáculo Trem Azul, de 1981, direção de Fernando Faro.

Elis participou do especial Mulher 80 (Rede Globo), um momento marcante da televisão; que exibiu uma série de entrevistas e musicais cujo tema era o papel feminino na sociedade. Com participação das maiores cantoras brasileiras e das atrizes Regina Duarte e Narjara Turetta, que protagonizaram o seriado Malu Mulher.

Ela atacou várias vezes a ditadura brasileira – a exemplo de Chico Buarque, que já teve o microfone desligado num show – nos difíceis “anos de chumbo”, quando muitos músicos foram perseguidos e exilados. Sua crítica era através de declarações ou nas canções que interpretava; sua popularidade a manteve fora da prisão, mas foi obrigada pelas autoridades a cantar o Hino Nacional em um estádio nas Olimpíadas do Exército.

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Interpretações consagradas de O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc) coroou a volta de personalidades brasileiras do exílio a partir de 1979. Um deles era o “irmão do Henfil”, o Betinho, importante sociólogo brasileiro.

Elis é mãe de João Marcelo Bôscoli, filho do seu primeiro casamento com o compositor e produtor musical Ronaldo Bôscoli, e de Pedro Camargo Mariano e Maria Rita, filhos de seu segundo marido, o pianista, produtor e arranjador César Camargo Mariano (com quem consagrou um longo trabalho de criatividade e consistência musical).

Causando grande comoção, Elis faleceu aos 36 anos, em janeiro de 1982, devido a complicações decorrentes de uma overdose de cocaína e bebida alcoólica (embora existam controvérsias). O laudo foi elaborado por médicos conhecidos por seu envolvimento no caso do jornalista Vladimir Herzog, assassinado por elementos da ditadura militar.

Elis Regina é cultuada no mundo todo, sua obra tem tratamento especial em lojas que dispõem seus trabalhos em prateleiras separadas; quando excursionava pelo Japão, três dias após suas apresentações já era possível encontrar o disco do show nas lojas. Dentre inúmeros fãs famosos, a cantora islandesa Björk homenageou Elis com a música Isobel.

Em 2005 inaugurou-se na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, um espaço para abrigar o Acervo Elis Regina. Em 2015, ela foi a grande homenageada da Escola de Samba Vai-Vai, com o enredo Simplesmente Elis – A Fábula de Uma Voz na Transversal do Tempo. Foi o 15º título da escola paulistana.

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Elis Regina – Falso Brilhante (1976)

“Falso Brilhante” nasceu de um show de Elis Regina, que estreou em dezembro de 1975, e permaneceu em cartaz no Estado de São Paulo até fevereiro de 1977. Somente no Teatro Bandeirantes, foram 257 apresentações. O álbum “Falso Brilhante” foi gravado no decorrer da temporada e lançado em março de 1976. Para o seu repertório foram selecionadas 10 canções que faziam parte do espetáculo, como “Fascinação”, versão do clássico “Fascination”, de Marchetti e Feraudy, “Tatuagem” (Chico Buarque), “Velha Roupa Colorida” (Belchior) e “Gracias a La Vida”, de Violeta Parra. A abertura do show, considerado por muitos como o seu grande momento, acabou por se transformar em uma das marcas registradas de Elis Regina. “Como Nossos Pais” varreu o Brasil, se transformou em um dos principais sucessos de 1976, e catapultou a carreira de Belchior que, em 1977, veio a lançar o seu álbum de estreia, “Alucinação”.

Um pouco de história

A gaúcha ornou-se conhecida nacionalmente em 1965, ao sagrar-se vencedora do I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, defendendo a música “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.

Ao lado de Jair Rodrigues, apresentou um dos programas mais importantes da música brasileira, O Fino da Bossa, estreado em 1965 na TV Record. O programa foi o responsável pelo lançamento de diversos artistas e sucessos, como “Canto de Ossanha” (Baden Powell/ Vinicius de Moraes), “Louvação” (Gilberto Gil/ Torquato Neto) e “Lunik 9” (Gil).

Seu disco “Elis”, de 1966, traz “Canção do Sal”, de Milton Nascimento, gravado aí pela primeira vez. Elis foi a primeira intérprete a gravar músicas de alguns compositores que se tornariam consagrados, como Milton, Ivan Lins (“Madalena”), Tavito/Zé Rodrix (“Casa no Campo”) e Belchior (“Como Nossos Pais”). Mais tarde daria um upgrade na carreira de Lô Borges ao gravar Trem Azul.

Participou de festivais e de movimentos político-musicais, como a “passeata contra as guitarras”, que visava à preservação das raízes da MPB contra a invasão estrangeira. Mas se renderia a Beatles e Roberto Carlos.

Um de seus discos mais marcantes, “Elis e Tom” (com Tom Jobim), foi gravado em 1974 nos Estados Unidos, onde também tornou-se popular. Algumas lojas passaram a expor seus discos numa estante exclusiva, como uma diva do jazz. No japão, seus shows eram gravados e transformados em disco na mesma semana.

No ano de 1979 participou do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, e gravou um de seus maiores sucessos, “O Bêbado e a Equilibrista”, de Aldir Blanc e João Bosco, dupla que lhe forneceria inúmeros sucessos, como “Caçador de Esmeraldas”, “Mestre-sala dos Mares”, “Dois pra Lá, Dois pra Cá”.

Björk – cantora islandesa – compôs a música Isobel em homenagem à Pimentinha, com arranjos do maestro e compositor brasileiro Eumir Deodato, o mesmo de Travessia, que Björk gravou em português.