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Vinil
02/09/2016

Vinil da Semana – Secos & Molhados

Enquanto lê o post abaixo, ouça os grandes sucessos de Secos & Molhados clicando aqui.

Grupo musical brasileiro da década de 1970 cuja formação clássica consistia de João Ricardo (vocais, violão e harmônica), Ney Matogrosso (vocais) e Gerson Conrad (vocais e violão).

O quarto elemento é o baterista argentino Marcelo Frias, que fez parte dos Beat Boys, banda que  acompanhou Caetano Veloso na apresentação da música Alegria, Alegria no Festival de Música da TV Record em 1967. Ele tocou ainda com os Mutantes, Gilberto Gil e Roberto Carlos.

Os Secos & Molhados estão inscritos em uma categoria privilegiada que levaram o Brasil da Bossa Nova à Tropicália e então para o rock brasileiro (ao lado de Rita Lee e Raul Seixas), um estilo que só floresceu expressivamente nos anos 1980. Seus dois álbuns de estreia incorporaram elementos novos à MPB, da poesia e o glam rock ao rock progressivo, servindo como referência fundamental para uma geração de bandas underground que não aceitavam a MPB como expressão.

Secos & Molhados - Prefácio

Em maio de 1973 entraram no estúdio para gravar seu primeiro disco, que vendeu mais de 300 mil cópias em apenas dois meses, atingindo um milhão de cópias em pouco tempo. Como o mercado vivia uma crise de vinil, a gravadora teve que derreter os discos que não estavam vendendo para prensar os Secos & Molhados.

As apresentações ousadas, acrescidas de figurino e maquiagem extravagantes enfatizando sua androginia fizeram o grupo ganhar notoriedade e reconhecimento (a banda Kiss, famosa pelas máscaras pintadas no rosto, estreou no disco um ano depois). Tudo isso mais as canções como O Vira, Sangue Latino, Assim Assado, Rosa de Hiroshima, que traziam peças do folclore português, a poesia de Cassiano Ricardo, Vinicius de Moraes, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa e João Apolinário (pai de João Ricardo), além de um espírito roqueiro.

A capa do disco não fugiu ao estilo, com as cabeças de seus integrantes postas à mesa para serem devoradas em meio a um banquete. Ney considera o álbum mais do que seu debut como cantor profissional, foi seu jardim da infância, um jardim da infância bem barra pesada – enfrentaram os conservadores, o governo e a polícia. Um show em Brasília teve a energia elétrica cortada a pedido da sogra do Ministro das Minas e Energia, porque ela ficou chocada com o peito nu e o rebolado de Ney Matogrosso.

Mas a meninada adorava e sabia pelo menos duas músicas de cor. Apesar do regime militar, vivia-se uma época de quebra de costumes, herança dos anos 1950 e 1960, onde tudo parecia ter virado de cabeça pra baixo e, nem igreja, nem escola, nem pais conseguiam mais controlar o ímpeto da nova geração.

Em fevereiro de 1974 fizeram um concerto no Maracanãzinho que bateu todos os índices de público no Brasil – 30 mil pessoas, outras 90 mil ficaram do lado de fora. Também nesse ano o grupo se apresentou no exterior e gerou oportunidades de criar uma carreira internacional sólida, sem contar que eram assediados por multinacionais concorrentes para se separarem, por quantias assombrosas.

Secos & Molhados - Prefácio

Em agosto do mesmo ano saiu o segundo disco, que teve como destaque Flores Astrais. Desentendimentos financeiros corroeram as relações e selaram o fim do grupo, em parte por Ney e Gerson não aceitarem a condição de ser apenas um músico contratado. João Ricardo tinha os direitos sobre o nome Secos & Molhados e, após algumas brigas na justiça, saiu à busca de novos parceiros.

Os três membros seguiram em carreira solo. Ney fez, em 1975, seu primeiro disco Água do Céu-Pássaro, recheado de experimentalismos e com o sucesso América do Sul. João lançou no mesmo ano seu álbum homônimo, mais conhecido por Disco Rosa/Pink Record. Gerson juntou-se a Zezé Motta e também produziu um disco.

A primeira formação após o fim do grupo surgiu em 1978, João Ricardo produziu o terceiro disco com Lili Rodrigues, Wander Taffo, Gel Fernandes e João Ascensão. Que Fim Levaram Todas as Flores?, uma das canções mais executadas naquele ano, trouxe o novo grupo de João às apresentações televisivas, porém seria seu último sucesso.

Secos & Molhados - Prefácio

Em 1980, junto com os irmãos Lempé – César e Roberto – o Secos & Molhados lançaram o quarto LP. Outra formação veio com o álbum A Volta do Gato Preto (em 1988), e João retomou os trabalhos da banda só em 2011 com a entrada de um novo integrante, Daniel Iasbeck. A dupla produziu o álbum autobiográfico Chato-boy.

Em 2003 saiu o disco Assim Assado: Tributo aos Secos & Molhados, com versões das músicas do LP de 1973 na voz de outros artistas. Entre eles, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Pitty, Tony Garrido e Ritchie. Em 2007 a revista Rolling Stone Brasil posicionou o primeiro LP em quinto lugar na sua lista dos 100 maiores discos da música brasileira.

A primeira fotobiografia da banda, Meteórico Fenômeno, foi lançada em 2013 pela editora Anadarco e foi organizada por Gerson Conrad. As fotos originais da época não foram usadas no livro, apenas Gerson e Ney aparecem nelas, pois João Ricardo não autorizou a publicação de suas imagens, alegando que não admitia que os ex-Secos ganhassem uns trocos em cima dele – o estranho é que qualquer um sabe quem é o mais famoso do grupo. O racha entre eles ecoa ainda hoje, impedindo uma reunião, mesmo com uma tentadora oferta de R$ 5 milhões para um único show.