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Vinil
29/12/2017

Vinil – Waldick Soriano

 

O cantor e compositor Eurípedes Waldick Soriano nasceu em Caetité/BA, em 13 de maio de 1933, e foi um ícone da música brasileira classificada como brega. Filho de Manuel Sebastião Soriano, comerciante de pedras preciosas, teve a infância marcada pelo abandono por parte da mãe.

Passou sua juventude na boemia e aventurou-se no mundo não muito cordial do garimpo, onde qualquer desavença podia terminar em velório. Procurando melhorar de vida foi para Belo Horizonte, em 1952, para trabalhar com lapidação e paralelamente como camelô. Mudou-se para São Paulo, pois queria ser cantor profissional e, apesar das dificuldades, conseguiu ficar conhecido nos anos 1950 com a música Quem És Tu?. Contudo, para sobreviver, chegou a engraxar sapatos.

Waldick Soriano ostentava um visual inspirado em seu ídolo das telas, Durango Kid (terno preto e chapéu, além dos óculos escuros). Sua primeira aparição devidamente paramentado foi alvo de uma verdadeira gozação por parte dos frequentadores de um bar em sua cidade natal, e que acabou em cena de faroeste com ele jogando seu cavalo para cima dos desavizados e surrando alguns deles.

Romântico, ele se destacou por suas canções dor-de-cotovelo (que perdeu o termo “cafona” para virar “brega”), seu maior sucesso foi Eu Não Sou Cachorro Não, regravada em inglês macarrônico pelo cantor e humorista Falcão (I’m Not Dog No). Entre seus sucessos de autoria própria estão Paixão de Um Homem, A Carta, A Dama de Vermelho e Se Eu Morresse Amanhã.

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 Em 1971, Beki Klabin, a extravagante milionária que animava as noites cariocas, conheceu o cantor baiano quando era jurada no programa do Chacrinha, e rendeu-se ao seu charme rústico, iniciando um comentado romance. Ela era proprietária da Flag, um dos templos da boemia e da boa música no Rio de Janeiro, que só recebia os medalhões da MPB e artistas do jazz – só “gente fina”.

A socialite agendou um show do artista na casa frequentada pela granfinagem para fazer apenas uma piada, uma espécie de atração de safári fotográfico pelo subúrbio. Mas eles, obviamente, não sabiam com quem estavam lidando e cometeram o erro de menosprezar nosso caubói. Waldick não conhecia o público, e este ignorava qualquer canção de seu repertório que não fosse a icônica Eu Não Sou Cachorro Não.

Mas sua química começou a funcionar. As mulheres começaram a beber e aconteceu uma combinação mortal de Scotch 12 com os feromônios fermentados com cal no pátio de uma construção. No ápice da festa Waldick tirou o paletó, abriu a camisa e subiu no piano, as granfinas foram se aproximando para cumprimentar, abraçar e até beijar o galã. Uma delas atracou-se com ele e os dois rolaram no chão, só não chegaram às vias de fato porque a turma do “deixa disso” interferiu.

Aquela noite deixou marcas indeléveis na sociedade carioca, as madames passaram a ser julgadas com base em sua “falta de resistência ao cantor”. Casamentos estremeceram, amizades se desfizeram e a já coroa Beki Klabin passou a ser alvo da inveja de suas pares. Como curiosidade, foi ela quem trouxe para o Brasil o nosso primeiro cartão de crédito, o Diners Club – em parceria com seu ex-marido Horácio Klabin, empresário do ramo de papeis e celulose.

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A posição quase marginal que o estilo de Waldick ocupava mereceu uma análise acurada pelo historiador Paulo César de Araújo no livro Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar. O autor contesta o papel de adesista ao regime de exceção implantado no Brasil por parte dos artistas “bregas”. Nosso caubói é um dos exemplos, tendo sua composição Tortura de Amor censurada em 1974, embora ela tenha sido gravada originalmente em 1962. O governo não tolerava que se falasse a palavra “tortura”, mas no caso de Waldick soava estranho, pois além de ter posturas conservadoras ele se dizia amigo de alguns generais.

Conquistador inveterado, o artista namorou também a dama dos boleros Claudia Barroso. Nessa época, eles eram da mesma gravadora, a Continental, e foi com uma música dele, Você Mudou Demais, que a cantora estourou em todo o Brasil. A própria gravadora criou esse romance com a autorização do casal e foi um relacionamento meio escandaloso, alimentado por notas picantes na imprensa.

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Waldick se casou três vezes, sua primeira esposa foi Walda Soriano, com quem teve sete filhos e foi parceira em algumas composições. Em 1990, quando vivia em Terezina, casou-se com a professora de dança Marinês Medrado, viveram juntos por 17 anos. Nessa época, ele começou a ter problemas de saúde, mas recusava-se a fazer tratamento.

Mudou-se para Fortaleza e já estava esquecido pela mídia, amargou momentos difíceis, passando a viver isolado e rejeitando o afeto de parentes e amigos. Em 2007, Patrícia Pillar o procurou porque estava produzindo o documentário Waldick, Sempre no Meu Coração; o interesse da atriz pela sua vida e sua obra acabou sensibilizando-o, nascendo daí uma amizade que facilitou a realização do projeto. Ele afirma no filme que teve 14 mulheres em sua vida, mas que nunca encontrou a tal felicidade – talvez reflexo do abandono que sofreu por parte da mãe.

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Waldick havia sido diagnosticado com um câncer de próstata, e sua progressão levou-o a óbito no dia 4 de setembro de 2008. Seus últimos meses de vida ele passou no Rio de Janeiro, rodeado de carinho pelos filhos e sua primeira esposa.

Na sua cidade natal, ele sempre foi tratado com certo menosprezo; Caetité mantinha apenas nas camadas mais populares uma fiel admiração. Em meados da década de 1990, porém, fizeram um resgate do filho ilustre, dando seu nome a uma de suas principais avenidas. Chamado por muitos de “Frank Sinatra brasileiro”, ele gravou mais de 80 discos, entre compactos, LPs e CDs, e compôs em torno de 500 músicas.

Curtiu? Ouça as músicas de Waldick Soriano na playlist que preparamos: http://bit.ly/waldicksoriano