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Vinil
15/04/2017

Elza Negra, Negra Elza

Enquanto lê o post de hoje, ouça as músicas de Elza Soares, clicando aqui.

Elza da Conceição Soares nasceu na favela da Moça Bonita, em Padre Miguel, no Rio de Janeiro, em 23 de junho de 1937. De uma infância muito pobre, casou-se aos 12 anos, obrigada pelo pai, e aos 13 teve um filho prematuro que veio a falecer por falta de recursos. Dois anos depois, ela perderia mais um filho.

Gostava de cantar, e a vizinhança já vislumbrava seu talento, pois, diariamente, ela subia o morro com uma lata d’água na cabeça cantarolando algo que ouvia no rádio. Em 1953, inscreveu-se no concurso do programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso (autor de Aquarela do Brasil). Como não tinha roupa decente para a apresentação, resolveu usar o vestido de sua mãe, que pesava 20 quilos a mais que ela. A improvisação do figurino, realizada com o auxílio de alfinetes, não adiantou muito e, assim que ela foi chamada pelo apresentador, o auditório veio abaixo e caiu na gargalhada – ela mesma reconheceu que estava “uma figura”. O próprio Ary, meio assustado, perguntou: – Mas de que planeta você veio, minha filha? Ela respondeu: – Do mesmo que o senhor, o planeta fome! Houve um silêncio generalizado. E Ary perguntou seu nome e que música iria cantar. – Lama, de Paulo Marques e Alice Chaves, respondeu. Então soltou sua possante voz e, quando terminou, o auditório ficou todo de pé para aplaudir. E Ary, incrédulo, falou que o Brasil acabara de testemunhar o nascimento de uma estrela. Ela, por sua vez, ficou olhando para o teto do teatro, procurando a tal estrela.

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Seu irmão Avelino – que tocava violão na Orquestra Garam de Bailes – a apresentou ao maestro Joaquim Naegli, e ele a contratou como crooner. Mas a música não lhe dava ganhos suficientes e ela passou a trabalhar como encaixotadora e conferente numa fábrica de sabão. Ficou viúva aos 21 anos. Vivendo uma situação de pobreza, com cinco filhos para sustentar, Elza deu sua única filha para uma família abastada criar, o que acabou lhe causando uma grande depressão.

Em 1958, depois de uma longa temporada na Argentina, foi convidada pelo compositor e produtor Aloysio de Oliveira a gravar um disco. Aloysio pertenceu ao Bando da Lua e foi noivo de Carmen Miranda, quando estava nos EUA; lá, trabalhou em trilhas sonoras com Walt Disney, inclusive fazendo a voz de alguns personagens de desenho animado. De volta ao Brasil, nos anos 1950, lançou João Gilberto, Vinicius de Moraes  e Tom Jobim, de quem foi parceiro em algumas músicas famosas.

Elza fez seu primeiro compacto pela Odeon com as músicas Mack the Knife e Se Acaso Você Chegasse, que foi seu primeiro sucesso, em que introduzia um “scat” similar ao de Louis Armstrong. Em 1960, lançou o primeiro LP, Se Acaso Você Chegasse, que estourou com Mulata Assanhada (do mineiro Ataulfo Alves). Depois vieram os discos A Bossa Negra e O Samba é Elza Soares.

Em 1962, fez apresentações como representante do Brasil na Copa do Mundo no Chile, onde encontrou Louis Armstrong, que lhe propôs fazer carreira nos EUA. Foi aí que conheceu o jogador e ídolo Mané Garrincha, que era casado e se separou da mulher para viver com ela. Garrincha era chamado de Anjo de Pernas Tortas e disputava a preferência do público com Pelé.

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A união causou fúria na sociedade, numa época em que todo mundo ia à igreja e vigiava o vizinho, Elza era xingada, sua casa era alvejada por vários tipos de objeto, até mesmo balas de revólver – todos a acusavam de ter destruído um lar. “Era uma época em que se tinha uma ideia da mulher submissa, que muitas vezes era depósito para lixo de alguns homens. Nunca quis isso e sofri muito”, disse uma vez.

Garrincha levou suas seis filhas para que ela o ajudasse a criá-las. Já naquela época o craque era alcoólatra, e ela rodava os bares pedindo a seus amigos para não darem bebida ao marido. Desgraçadamente, ele perdeu o patrimônio que acumulara, pois dava aos amigos tudo o que lhe pediam, mesmo que fosse uma casa.

Em meio a muita confusão, em outubro de 1967, Elza gravou um conceituado álbum com o baterista Wilson das Neves. Tinha bossa nova (Samba de Verão, Garota de Ipanema e O Pato), o samba-canção Copacabana e o “samba-rap” Deixa Isso Pra Lá, que foi sucesso com Jair Rodrigues.

De 1967 a 1969, Elza fez três álbuns com o cantor Miltinho, num período de muito sucesso. Em 1970, foi para a Itália e, naquela década, lançou seis álbuns. Em 1974, foi madrinha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel e lançou o hit Salve a Mocidade. Nos anos 1980, fez os álbuns Somos Todos Iguais e Voltei.

Em 1983, Garrincha morreu de cirrose, quando já estavam separados, mas Elza nunca perdeu o carinho por ele. Em 1986, seu filho Garrinchinha morreu em um acidente. Ela, então, deixou o Brasil por nove anos, período em que permaneceu fazendo turnês pela Europa e EUA.

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Em 1997, gravou o CD Trajetória, contendo só sambas. Nesse mesmo ano, saiu o livro Cantando Para Não Enlouquecer, biografia escrita por José Louzeiro. Em 2002, o álbum Do Cóccix Até o Pescoço garantiu-lhe uma indicação ao Grammy e impulsionou numerosas turnês pelo mundo.

Em 2003, lançou Vivo Feliz, que apresentou colaborações de artistas inovadores como Fred Zero Quatro e o consagrado Zé Kéti. Em 2007, saiu o álbum Beba-me, onde gravou as músicas que marcaram sua carreira.

Incansável, Elza ainda fez, em 2015, A Mulher do Fim do Mundo, só com músicas inéditas compostas pelos paulistas José Miguel Wisnik, Rômulo Fróes e Celso Sim. Para muitos, é difícil acreditar que uma senhora de 78 anos tenha lançado onze faixas tão contemporâneas. Em 2016, o álbum venceu o Prêmio da Música Brasileira e o Grammy Latino de Música Brasileira, além do Prêmio Multishow, com a música Maria da Vila Matilde.

Foi considerada a melhor cantora do milênio, pela BBC, em 1999, e descrita como “uma mistura explosiva de Tina Turner e Celia Cruz”. Ela extrapola qualquer gênero musical e, nas palavras de um crítico europeu, “Elza é um mito de ópera a cantar samba.” Recentemente foi lançado My Name Is Now, um documentário musical de Elizabete Martins Campos sobre a vida da cantora.