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Vinil
23/03/2018

Luiz Gonzaga: a grande voz do baião!

Luiz Gonzaga Nascimento nasceu em 13 de dezembro de 1912, em Exu, sertão de Pernambuco. Filho de Januário José dos Santos, o Mestre Januário, e Ana Batista de Jesus, aprendeu a tocar sanfona ainda criança.

Em 1929, por problemas com o pai de uma namorada, ele foi para o Ceará e alistou-se no exército. Com a Revolução de 1930, viajou pelo país servindo um tempo em  Juiz de Fora/MG. Foi para o Rio de Janeiro, onde começou a se apresentar em bares e cabarés.

Tocando como sanfoneiro da dupla Genésio Arruda e Januário, gravou o seu primeiro disco pela RCA Victor, com boas vendas. Em 1945, sai seu primeiro compacto como cantor, com as músicas Festa Napolitana e Ovo Azul.

Conheceu Léia, uma sambista que fazia parte do coro de Ataulfo Alves. Ela havia sido expulsa de casa por ter engravidado de um namorado que não assumiu a criança. Os dois ficaram juntos e Gonzaga registrou o menino como sendo seu, e o chamaram de Gonzaguinha. A relação foi cheia de conflitos e separaram depois de dois anos de convivência, sempre visitando regularmente.

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Trabalhou na Rádio Nacional, onde encontra-se com o acordeonista catarinense/gaúcho Pedro Raymundo, que usava os trajes típicos da sua região. Daí surge a ideia de apresentar-se vestido de vaqueiro, figurino que o consagra como artista: chapéu (inspirado nos cangaceiros), gibão e outras peças características.

Compôs a música Meu pé de Serra junto ao seu parceiro Humberto Teixeira, com quem criou muitos sucessos. Mas foi Zé Dantas que fez o seu nome correr o mundo.

Gonzagão passou cerca de 16 anos sem ver a família e, ao chegar em casa no meio da noite foi recebido pelo pai. Fica frente a frente com Seu Januário e é interrogado: – Quem é o Sinhô?, – Luiz Gonzaga, seu filho!, – Isso é hora de chegar em casa, corno sem vergonha!?. Luiz compôs Respeita Januário, em homenagem àquele que foi o responsável pela sua iniciação musical.

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Em 1947, gravou Asa Branca, um baião que fala da seca no Nordeste, que pode ser tão intensa a ponto de fazer migrar até mesmo a ave asa-branca (Patagioenas Picazuro, também conhecida como pomba-pedrês ou pomba-trocaz).  Foi mais uma parceria com Humberto Teixeira e a canção conta com quase mil interpretações no Brasil e no mundo.

“Essa música aí foi esse negro safado que roubou de mim”, dizia, em tom de brincadeira, o velho Januário. Na verdade, ela fazia parte do repertório dos sanfoneiros da região como também dos cegos que tocavam nas feiras. Fato comum com canções regionais em qualquer parte do mundo, quando várias pessoas se apossam de uma obra de domínio público, colocam sua própria letra e gravam.

Casou-se com a cantora – também pernambucana – Helena Cavalcanti e voltou para o Rio de Janeiro. Luiz e Helena não conseguiram ter filhos, mas adotaram uma menina que batizaram de Rosa (herdeira oficial e que cuida de sua obra).

Léia, mãe de Gonzaguinha, morreu de tuberculose e Helena não permitiu que Luiz leve o menino para morar com eles. Sem saída, entregou o filho aos padrinhos da criança, Leopoldina e Henrique Xavier, para criarem no Morro do São Carlos. Mas os Gonzagas não se davam bem, o pai imaginava que o menino se tornaria um malandro devido às amizades que fazia no morro. Então, não podendo levá-lo de volta para casa, resolve colocá-lo em um colégio interno.

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Gonzaguinha frequentava a boemia. Alcoólatra, resolveu se tratar e passou a considerar a música como um caminho a ser trilhado. Pai e filho fizeram as pazes mais tarde, quando “o menino” entrega ao pai seu primeiro disco gravado em 1973. A partir daí viajam o Brasil e compõem juntos. Entre suas composições a mais famosa é Vida de Viajante.

Em meados dos anos 1960, a música da Jovem Guarda tomou conta das rádios e os odiados “cabeludos” tornando campeões de venda. Com isso, muitos artistas tradicionais se sentiram ameaçados, com as gravadoras forçando a barra para que mudassem seus repertórios. A coisa chegou a tal ponto que duplas caipiras gravaram sucessos de Roberto Carlos.

Nesse clima é que, em 1968, corre um boato na imprensa de que os Beatles gravariam Asa Branca. Após a euforia inicial, descobrem que tudo não passa de história inventada pelo agitador cultural e compositor Carlos Imperial, que costumava criar situações para se promover. Ele afirmava que havia semelhanças musicais entre o rock e o baião (em parte, culpa da canção  “indiana” do beatle George Harrison, The Inner Light). O sanfoneiro aproveita a maré: “Aquilo foi mentira, foi cascata bem favorável para mim, fiz shows e dei muitas entrevistas”, declara.

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No princípio dos anos 1970 a música popular procurava novos caminhos. Visando o público jovem dos festivais, ele grava Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Jobim, Geraldo Vandré e Dori Caymmi. É uma época de resgate das raízes regionais brasileiras que deságua no momento mais importante da carreira do pernambucano desde o apogeu do baião nos anos 1950. De 1946 a 1955, ele foi o artista que mais vendeu no Brasil, somando quase 200 discos gravados e mais de 30 milhões de cópias vendidas.

Em 1980, Luiz Gonzaga cantou para o Papa João Paulo II, em Fortaleza, tocou em Paris e recebeu dois discos de ouro pelo álbum Sanfoneiro Macho. Em 2 de agosto de 1989, o “Lua”, como também era conhecido, falece em Recife. Os ritmos que ele urbanizou estão na música de grandes artistas e na de milhares de forrozeiros que trilham os caminhos abertos por ele.

Ouça a playlist de Luiz Gonzaga que criamos exclusivamente para você clicando aqui.